Entrevista Kerrang! Parte II

Postado por Paula Quissack - 27/12/2016

“O último álbum do Radiohead, do Kanye West e da Beyoncé. Simplesmente amei o modo com que eles saíram da zona de conforto e deixaram os fãs decidirem o que achavam. Essa é a única maneira de dar as pessoas essa pureza, pois não existe mais”, diz Shadows. A pureza na música foi algo que você sentia quando era mais novo? Esse pode ser o caso de tentar recriar a época que íamos às lojas de CDs e escolhíamos um álbum, sem ter ideia que tipo de música havia nele. “Acho que ele é a versão 2016 dessa ideia. Quando eu era mais novo, eu provavelmente lia as reviews sobre um CD. Se eu tivesse sorte – ela estaria na Rolling Stone, ou na Hit Parade, ou na Kerrang!-. Mas agora, vem uma enxurrada de opiniões sem o álbum nem ter saído ainda. Pra mim, quando comprávamos um álbum, era baseado apenas nos posters, rádio e então você o comprava e formava sua opinião. Tudo de maneira bem old-school.” complementa M.Shadows.
Essa estratégia do A7X de lançar o The Stage é um convite a outros artistas para evitar o modo moderno de lançamento e tentar algo novo e especial. “Se as pessoas te disserem que a indústria da música hoje está em um patamar saudável, elas estão mentindo. Há muitos downloads e a venda do material físico é baixa, então pouco dinheiro retorna ao artista e gravadora. Acho importante o artista sentar e pensar ‘ bem, vamos fazer desse modo, se der certo, legal. Mas se não der, tudo bem’. Mas as pessoas tem de tentar coisas novas e nós esperamos que isso encoraja outros a fazerem o mesmo.” diz M. Shadows.
“Lançamos um álbum de uma maneira tão diferente é um processo que nos deixa nervosos porque fomos a primeira banda a fazer algo do tipo. Mas nossos fãs são apreciativos e defensivos também. Para cada artigo que querem focar que não vendemos o bastante, há alguém nos defendendo por estarmos fazendo algo diferente” diz Zacky.
Para lançar um álbum na escala que o Avenged Sevenfold tem, primeiro temos que voltar para o momento antes do The Stage ser cogitado. De fato, eles tiveram que encontrar um jeito de superar o momento mais doloroso que a banda passou: Preencher o espaço em branco deixado pelo o amigo falecido Jimmy “The Rev” Sullivan. Após perder o amigo tragicamente em 2009, e logo após se separar do baterista de Hail to the King, Arin Ilejay, em 2014 por diferenças criativas. O A7X estava à procura de alguém extraordinário e eles acharam sua alma gêmea musical no Bad Religion, com o Brooks Wackerman.
O que parece ser outro movimento surpresa, pensou, fez o maior sentido de todos. “Ele encaixou perfeitamente” sorri Zacky, “É necessário uma certa raça de pessoa para fazer o tipo de música que fazemos, e ao menos que você tenha vindo do Sul da Califórnia e tenha os mesmos gostos, é meio impossível imitar o que fazemos. Muitas bandas tentaram, mas eles não tem a fórmula exata para fazer igual”.
A união das forças serviu instantaneamente para os dois lados, “eu estive por 15 anos no Bad Religion e fico muito orgulhoso por todo trabalho que fiz com a banda,” diz Brooks, “Eu estava aberto a opções e vendo o que acontecia e felizmente os caras do Avenged me receberam. Eu amei o fato de entrar na banda quando o álbum estava sendo feito, para escrever com eles – soou como a situação perfeita. E, de longe, foi mesmo.”
Estatisticamente, a chegada de Brooks abriu portas – você consegue ouvir isso em cada nota tocada no The Stage- . Desta vez o Avenged Sevenfold ficou no estúdio para gravar o álbum mais tempo do que das outras vezes, e com isso, vieram muitos benefícios. Gravaram e produziram o álbum na Califórnia com Joe Barresi. Os cinco foram muito felizes com suas criações “Todo dia quando Brooks aparecia, acontecia a mágica” Syn releva orgulhoso. “A sua abordagem única, o conhecimento para compor, sua paixão para criar energia e emoção… Ele não tem medo. No ápice dos ensaios, todos nós riamos tanto que chegava a ser ridículo.”
Nós sempre nos orgulhamos como banda e não tem medo de compor, mas eu acho que nesta ocasião nós pegamos todas nossas influencias e jogamos em um liquidificador, e não importa o jeito que saiu de lá, nós gostamos, não importou o tipo de música, riff ou o arranjo que fosse, nós estávamos animados por não ter ninguém nos barrando. Sabíamos que ele era capaz de tocar bateria de uma forma que nunca ninguém ouviu antes.” Adiciona Zacky. “Ele é inacreditável – especialmente para o nosso estilo de música. Isso era algo que nós sentíamos falta desde a morte do The Rev. O Brooks era uma inspiração para o Jimmy. Ele tem essa habilidade natural de ser selvagem, imprudente e nós queríamos incorporar isso. Queríamos fazer um álbum bruto, um álbum de punk rock californiano com elementos da música progressiva e do metal. Queríamos fazer o maior álbum de punk-rock progressivo e metal que já existiu (risos).”
E então o fizeram. Finalmente, parece que eles encontraram a peça do seu quebra-cabeça perdida há sete anos. Para o A7X, inspiração é a palavra chave. E nessa época, o A7X teve um conceito lírico para competir com sua valente tentativa de escrever música. Foi uma longa jornada desde seus 20 anos de idade quando ainda usavam maquiagem em seus clipes. “Em Creating God exploramos um dos principais temas do álbum: a inteligência artificial. Enquanto isso, Paradigm fala sobre a cura de doença através de nano robôs. Simulation bate na tecla de que a realidade é uma mera simulação. Exist é uma interpretação do Big Bang e é complementada por um monólogo do cientista mais famoso dos Estados Unidos, Neil deGrasses Tyson” explica Shadows.
“Nunca achei que viria o dia que eu estaria em uma música junto com Neil” Brooks confessa enquanto dá risada.
Você e nós, amigo.
Há assuntos que provaram ser um tremendo estímulo para o Avenged Sevenfold e são abordados cuidadosamente pela banda que fez sua pesquisa – mas também sabem seus limites.
“Sempre gostamos de sentar e filosofar, conversar sobre o desconhecido e pontificar um ao outro” comenta Syn. “Recentemente, Matt ficou obcecado por essas coisas. Com uma paixão natural por algo, ele é um puta cara esperto e ele acumulou todo esse conhecimento- e mais importante: teve a sabedoria suficiente para fazer as perguntas certas.”
“Aconteceu de maneira bem original – não foi forçado em Inteligência Artificial , evolução ou nada do tipo” acrescenta Johnny. “Foi simplesmente todos nós individualmente nos encontramos muito interessados nessas coisas e quando nos juntávamos, conversávamos sobre isso. Sempre me interessei muito sobre avanços da tecnologia humana”.
Assim que começamos a falar com M.Shadows sobre o assunto, seus olhos brilharam e sua voz acelerou. Sua paixão pelo assunto é contagiante.
“Quero manter tudo isso com o pé firma na ciência.” Ele revela. “Coisas tipo a Teoria da Simulação, tão louca quanto parece, é matematicamente possível. E o Big Bang é a teoria que é a mais considerada verdadeira. Queria ter certeza que tudo no álbum fosse baseado na ciência- e não em androides invadindo a Terra ou O Exterminador do Futuro, porque não é assim que acontece. Não falamos de nada estranho como essas coisas.”
E do que vocês falaram então?
“Todos nos seus celulares o tempo inteiro, todos estão usando a inteligência artificial mas ninguém está realmente pensando na repercussão do crescimento exponencial e o quão rápido isso vai superar a inteligência humana. Isso tudo tem um grande papel e por isso a questão veio à tona” diz M. Shadows.
“E claro, primeiramente eu acho que é devastador tratando de seres humanos egoístas. Crescemos achando que tudo gira em nosso redor. Há tantos problemas que são maiores que a gente, então é devastador quando você se afunda até a toca do coelho. Mas, você começa a ver a beleza nisso tudo. Tipo, o mesmo colapso genético que há em seres humanos, há também nas estrelas e em cada planeta em todo o universo, e não podemos simplesmente fechar nossas mentes pra isso. Acho isso lindo” sorri Shadows. “É legal estar vivo, e é só uma perspectiva diferente. Não é que nós necessariamente temos um propósito, mas estamos aqui e precisamos ser mais gentis um aos outros porque as coisas que nós discutimos na Terra não tem não tanta importância no grande esquema das coisas”.
“Passamos muito tempo contemplando o mundo, o universo, nossa situação, coisas pelo quais passamos… todas vieram com a maturidade” Zacky acrescenta .“Somos do tipo que acha beleza numa taça de vinho caro ou se diverte tomando a bebida mais barata.”
Se você vê a nova fase do A7X como um sucesso ou não, é irrelevante.
A banda está revigorada com o assunto abordado e mais importante, impressionada com a resposta dos fãs. “Tem sido muito animador. Estamos explorando novos territórios então ainda leva um tempo pra nos encontrarmos no meio disso tudo. Você passa tanto tempo guardando segredo e de repente você está fazendo tudo isso que você normalmente estaria fazendo daqui três meses. Tem sido legal sair da caixa do que fazer a mesma coisa de sempre” diz M. Shadows.
“Fui parte de vários grandes projetos no passado, mas nada nessa magnitude considerando como lançamos esse álbum e a máquina por trás dele e todas as partes se movendo simultaneamente” complementa Brooks.

A teoria do big bang

Syn nos leva à mais aleatória colaboração do metal de 2016, como o A7X se juntou ao astrofísico Neil deGrasse Tyson.

Originalmente o M. Shadows queria que o Big Bang fosse interpretado em uma música puramente instrumental de 15 minutos, Exist, mas você não concordou, por quê?

Ironicamente, eu nunca fui fã de músicas que fossem só instrumentais. Muitas de nossas bandas favoritas fizeram isso – de Matallica até Dream Theater – mas a parte engraçada é que música clássica é basicamente instrumental, então eu não sei o porquê eu não gosto de música instrumental. O que eu certamente sei é que eu não quero nada disso nos meus álbuns! Eu pensei que podíamos fazer uma mistura e ter o melhor dos dois lados. Como tudo o que a banda já fez, nós cagamos para a visão dos outros integrantes um pouco mas quando olhamos pra trás, é sempre para o melhor. Porque eu nunca faria uma música como esta se o Matt não tivesse dado a ideia.

E o Neil, como ele entrou nisso tudo?

Quando nós estávamos discutindo sobre essa ser uma música sobre o Big Bang, que há seres humanos aparecendo na linha do tempo, então a voz e a letra representa isso. Foi bem aparente desde o começo que seria um ótimo final para o álbum, fazer algo similar ao discurso doPale Blue Dot (Carl Sagran), mas ter o nosso Messias moderno desse tipo de merdae a resposta era bem simples: Era isso cara! Ele foi bem inacreditável e disse: “Claro, tô dentro, juntem algo para eu falar”. Ele não tinha nenhuma pretensão nisso. A esposa de Matt orquestrou tudo, pegou várias obras de Neil e juntou tudo perfeitamente, e então ele fez esse rascunho final. Isso ficou incrível. Foi uma das coisas que poderia ficar muito ruim ou legendário no final do nosso álbum. Eu amei, então espero que outras pessoas também tenham amado. Não ouvi nada ruim ainda, o que é bem louco. Eu não sabia se isso teria tanto foco, mas o legal é que é um ótimo assunto para conversas.

Há alguma lição a ser aprendida aqui?

Eu acho que quando você faz algo que realmente está apaixonado e animado, alguém vai ter os mesmos sentimentos que você. Especialmente se você tem um bom grupo de amigos – isso se resume ao time, também. Se todos estão animados com uma coisa, te dá calafrios, você derrama lágrimas – as pessoas vão compartilhar dos mesmos sentimentos que você.

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